O lanche

O lanche

Um bom vegano, após alguns anos de resistência nesse modo de vida, aprende na raça e na coragem sobre aquilo que lhe espera no mundo lá fora. Ou seja, nada. Bares, lanchonetes e restaurantes raramente possuem cardápios preparados para oferecer opções que tenham sido pensadas para pessoas que não consomem carnes, ovo, leite e qualquer outra substância de origem animal. Por esse motivo, é preciso se adaptar às circunstâncias, adotar estratégias de sobrevivência na cidade e, principalmente, levar marmita.

Mas, algumas vezes, nossa rotina é surpreendida por imprevistos que nos coloca em situações embaraçosas, e saber contorná-las, tomando as decisões acertadas, é fundamental para não precisar recorrer a fontes de alimentação mais extremas como, por exemplo, o soro.

Recentemente, precisei ir ao banco resolver assuntos de minha conta corrente. Sabendo que este abre somente a partir das onze, me programei para chegar no horário de abertura, estimei que a visita não demoraria mais que uma hora. Sendo assim, planejei voltar para casa para almoçar antes de retornar para o centro da cidade, pois, às duas horas, teria um outro compromisso.

Cinco minutos antes das onze horas, estava eu na porta do banco, não exatamente na porta, mas a pelo menos meio quarteirão de distância, no último lugar de uma fila que só não era maior do que a de lotérica no último dia de apostas da Mega da virada. Olhei para o visor do celular e confirmei: quinto dia útil do mês.

Ainda considerei a possibilidade de deixar aquela tarefa para um outro dia, mas àquela altura a fila atrás de mim já tinha se desenvolvido consideravelmente, e me senti privilegiado por não ser mais o último. A minha posição agora era invejada pelos retardatários às minhas costas, e eu não estava mais disposto a desistir dela tão facilmente. Decidi então ficar, se o assunto no banco se estendesse demais, eu poderia comer alguma coisa na rua e já permanecer no centro para o meu compromisso das duas.

Demorou. E ainda esqueci de sacar o dinheiro que precisava. Sai de lá já passava de uma hora da tarde e agora eu precisava me alimentar rapidamente para não me atrasar. Um lanche me pareceu mais rápido que um prato comercial. Sabendo que toda lanchonete teria o mesmo leque de falta de opções, entrei na primeira que me pareceu mais higiênica. Olhei para aqueles letreiros fixados atrás da atendente e perguntei:

Vocês possuem opções para veganos? — Claro que eu já sabia a resposta.

Nós temos só esses lanches que estão no cardápio mesmo.

Fui lendo atentamente os ingredientes de cada lanche, querendo encontrar algum em que eu pudesse tentar uma adaptação de sabores. Encontrei o “egg salada”: ovo, maionese, catchup, mostarda, alface, tomate, ervilha e batata palha. Preço: sete reais.

Esse “egg salada”, faz um para mim, mas tira por favor a maionese e o ovo.

Sete reais, vai beber alguma coisa?

Sete? Mas eu tirei o ingrediente principal, o ovo, sem falar a maionese, não tem como tirar um pouco do preço também?

— Não.

— Então espera um pouco. — Voltei a ler o letreiro, relutante em aceitar pagar o valor inteiro por um lanche que já vem faltando uma parte, encontrei então o “queijo quente salada”: queijo, maionese, catchup, mostarda, alface e tomate. Preço: cinco reais. — Quero esse queijo quente salada, mas troca então, por favor, o queijo e a maionese por ervilha e batata palha. — Minha intenção era chegar ao mesmo lanche por um rota alternativa, e com isso economizar dois reais, na esperança de que ela não percebesse.

— Oito reais, vai beber alguma coisa?

— O que?!

— Oito reais, senhor. Cinco do lanche mais três de adicionais: um e cinquenta da ervilha e um e cinquenta da batata palha.

— Mas não é uma adição, é uma troca.

— A gente não faz lanches que não estão no cardápio, senhor, nesse caso será cobrado como adicional mesmo.

— Moça, mas é o mesmo lanche que o “egg salada sem ovo e sem maionese”, como pôde ficar mais caro? — A atendente então comparou os dois pedidos, e percebeu o que eu tentara tramar contra ela. Um sorriso maldoso e triunfante arqueou em seus lábios.

— Senhor, eu apenas lanço o pedido no sistema e ele me mostra o valor.

— Então se eu pedir um “milk shake sem leite com adicional de água” o sistema vai me cobrar por um milk shake, e não por um suco de morango?

— Nesse caso o sistema vai te cobrar mais inteligência — foi o pensamento que a fisionomia dela denunciou, mas então respondeu — O sistema nem vai reconhecer esse pedido, senhor.

É óbvio que o sistema não vai reconhecer nem muito menos calcular de maneira justa, este ou qualquer outro pedido vegano, pois nem os seres humanos, quem programa os sistemas, reconhecem. Lembrei do momento em que decidi permanecer na fila do banco, a fome de sustentar e exibir a minha posição para os desconhecidos atrás de mim me custara mais fome ainda. Já estava atrasado para o meu compromisso e não tinha mais tempo para tentar burlar o sistema, a contragosto, cedi:

— Então vou querer o “egg salada sem ovo e sem maionese”, mesmo.

— Sete reais, vai beber alguma coisa?

— Não. — E estendi minha mão segurando o cartão de crédito, mostrando a ela qual seria a forma de pagamento.

— Cartão só acima de dez reais.

Categoria: CrônicasTags:
Autor

Gabriel Manussakis

Designer gráfico e desenvolvedor web. Fundou o Vegpin em 2018 com o objetivo de tornar mais acessível o universo vegano.

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