Disk pizza

Disk pizza

A noite de sábado se aproximava, e o momento de decidir o que haveria de janta também. As aguadas vozes do estômago já soavam as primeiras notas avisando que a escolha do cardápio já não poderia mais ser adiada. Olho para a pia da cozinha e, sem nenhuma surpresa, não vejo a pia. O que significa que, se eu olhasse para dentro do armário de louças, veria, sem dúvida, apenas o armário.

Um gesto automático de desespero me fazia abrir a geladeira pela centésima vez naquela noite, na esperança de que, desta vez, encontraria alguma relíquia gastronômica escondida que iria me salvar de enfrentar o Satan Goss que criou forma sobre a minha pia. Sem sucesso.

A voz da minha razão me dizia que devia ser resistente, daria um jeito rápido na louça, pelo menos o suficiente para conseguir cozinhar um macarrão ao molho Pomarola com o mínimo de dignidade, mas, a essa altura, as vozes em meu estômago já entraram no ritmo, agora todas deliravam ao embalo da melodia de uma música que possuía uma única palavra: pizza!

Revi os meus gastos com comida durante a semana: almocei quase todos os dias em casa e jantei as sobras dos almoços. Sempre faço isso para argumentar para mim mesmo que pedir uma pizza será uma decisão planejada, sábia, mas estou consciente, no fundo, de que a decisão já está tomada pelo coral estomacal que me habita.

Pizzaria.

Boa noite, eu queria fazer um pedido. — A atendente então pediu para eu confirmar o endereço cadastrado no número de telefone — esse mesmo — respondo.

Qual o pedido, senhor?

Vocês possuem opções para veganos?

Como? — Ok, eles não possuíam.

Tem algum sabor vegetariano?

Tem a pizza vegetariana, que vai brócolis, palmito e champignon.

Vou querer essa então, mas tem um detalhe, eu não como lactose, então eu vou querer sem queijo, pode ser? — Silêncio. A ideia de uma pizza sem queijo paralisou o aparelho fonético de minha interlocutora. Após o tempo necessário para que ela se recompusesse, preferiu confirmar o que tinha acabado de ouvir.

O senhor quer uma pizza sem queijo? — Alívio. Embora perplexa, ela havia entendido o meu pedido.

— Isso! É só tirar o queijo, é que eu não posso comer lactose — mentira minha, eu posso, mas não quero, e também não quero explicar por que não quero, então digo que não posso, isso me poupa a energia, já escassa por conta da fome.

Vai querer borda com catupiry? Adicional de dois reais? — Silêncio, agora de minha parte. Eu poderia me esforçar para fazê-la entender que o catupiry e o queijo são feitos com a mesma matéria-prima, o leite, e, portanto, ambos possuem lactose, mas eu precisava economizar energia para receber a pizza quando o motoqueiro chegasse, então apenas respondi:

Não.

Só os legumes por cima? Sem nada? — Nada? Como assim “nada”? Na minha pizza tem brócolis, palmito, champignon, molho de tomate, orégano e algumas azeitonas.

Só isso mesmo. — Respondi.

Trinta e cinco, vai precisar de troco?

Troco para cinquenta.

Ok. Vai demorar uns quarenta minutos.

Tá bom, tchau!

Tchau.

Pedido feito. Olhei para a louça sobre a pia e ela até me parecia menor, tomei coragem para lavar os utensílios que precisaria para a janta que estava a caminho. E esperei.

Não demorou até ouvir o barulho do motor de uma CG se tornando cada vez mais audível, torci para que fosse a minha encomenda. À medida que abria a porta de casa para averiguar a situação, ouvi o “bi bi” da buzina. Salivei litros. Do meu estômago não soava mais o barulho de vozes, e sim, de palmas. Enquanto o motoqueiro separava o meu troco, ele disse:

Você que pediu a pizza sem queijo? — Ótimo, virei assunto na pizzaria.

É, eu não posso comer lactose. — E me antecipei para pegar o meu troco e encerrar o assunto. — Valeu então, bom trabalho.

Valeu, bom apetite.

É chegada a hora. Do portão até a sala de jantar a pizza aquecia a palma de minha mão. Logo que a deitei sobre a mesa, abri a tampa, ansioso para me certificar de que o pedido tenha vindo corretamente e, para minha imensa surpresa, sim, tudo certo. Não havia sequer um vestígio de queijo sobre os legumes. E o que era ainda melhor, reparei que as cascas nas bordas vieram bem servidas e até um pouco torradas.

Coloquei a primeira fatia no prato e fui avançado, pedaço a pedaço, em direção à borda. O que foi um triângulo era agora a oitava parte do aro de uma circunferência de massa. Com as mãos, peguei aquele tesouro e o dividi ao meio com uma mordida saliventa. Foi nesse momento que percebi que tudo estava muito correto para ser verdade, a massa estava com uma consistência mole demais para seu aspecto torrado. Por um instante me perguntei se ela podia estar crua por dentro, mas logo um inconfundível sabor, já antigo para mim, contaminou meu paladar: catupiry.

Fiquei possuído. Devolvi tudo para o prato e fui em busca do telefone disposto a entrar numa discussão e, desta vez, fazer a pizzaria entender aos berros o que eu não quis explicar na primeira ligação.

Pizzaria.

Oi, eu pedi uma pizza sem queijo aí com vocês…

Ah, sim.

Pois é, só que a borda veio com catupiry e…

Sim, foi cortesia da casa, como o senhor tirou o queijo, nós não cobramos o adicional da borda, nem se preocupa. — Ótimo, ela me fez comer lactose depois de anos e eu ainda fiquei “devendo essa” para a pizzaria. Mas, de qualquer forma, aquele gesto converteu minha fúria em simpatia.

Ah…Ok, valeu então! — Pois é, tive que agradecer por ter ingerido leite.

Disponha.

Desliguei o telefone e encarei os sete pedaços restantes. Com uma faca, fui delimitando uma fronteira entre o recheio e a borda, deixando um pouco de recheio para o lado de lá, para não haver a possibilidade de um catupiry intruso se meter no lado de cá. Terminei o corte, removi toda a borda e agora minha pizza não passava de uma esfirra aberta. Com o apetite afetado, comi mais um pedaço para calar de vez o meu estômago, tampei a pizza e guardei dentro do forno. Olhei para a pia e fui lavar a louça.

Categoria: CrônicaTags:
Autor

Gabriel Manussakis

Designer gráfico e desenvolvedor web. Fundou o Vegpin em 2018 com o objetivo de tornar mais acessível o universo vegano.

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